Artigos

21/05/2018 10:32

Médico do Cafundó

Aos 70 anos, médico há 40 e tantos no mesmo lugarzinho perdido entre as montanhas, resolveu aposentar-se e cuidar da fazenda que herdou do pai e aumentou com os ganhos da clínica.

 

Um recém-formado da capital veio substitui-lo. O velho cedeu a ele o consultório até que pudesse instalar-se por conta própria. Diante de um novato espantado explicou que ali não havia laboratórios e que os diagnósticos eram feitos sem exames.

 

Ele adotava um sistema mais prático. “80% dos casos são repetitivos”, disse: “dor de garganta, infecção intestinal ou urinária, parasitoses etc..”.

 

“Não precisamos de exames para medicar doentes com essas coisas recorrentes. Se não melhorar em cinco dias, volte”, digo a eles. “Poucos voltam”.

Vou te contar uma história que o povo daqui garante ser verdadeira: tinha um médico muito antigo que completava os diagnósticos com uma análise de urina do paciente

“Mais não é muito arriscado receitar sem exames?”

 

“Risco pequeno, compensado por um grande benefício.”

 

“Eu tenho medo, isso está fora do protocolo” diz o jovem médico.

 

“O protocolo não é tudo, pode ser ignorado por uma boa causa.”

 

“Vou te contar uma história que o povo daqui garante ser verdadeira: tinha um médico muito antigo que completava os diagnósticos com uma análise de urina do paciente. Não sei se usava aquilo como marketing ou se acreditava mesmo no procedimento. O fato é que ele punha uma lâmina da amostra em um velho microscópio e diagnosticava moléstias com muita precisão.

 

Acontece que o Nivaldo-do-Caminhão, que puxava leite das fazendas para o laticínio, tinha uma birra dele e vivia zombando do tal exame de urina.

 

Aí um dia ele ficou meio perrengue com uma dificuldade de urinar acompanhada de ardência no canal e teve que ir ao consultório do velho, por que não tinha outro.”

 

“Boa tarde, como vai? Senta aí, qual o problema?”

 

“Tô ruim da urina... ardida, fraca, doída.”

 

“Volta amanhã com uma amostra de urina, a primeira do dia”.

 

“Foi embora o paciente disposto a pregar uma peça e desmoralizar o médico. Levantou cedo, pegou a primeira urina e pediu para a Joana, sua mulher e a filha Carmem para colherem amostras também. Misturou as três no vidrinho que trouxera no dia anterior e bem satisfeito voltou ao consultório. Antes, porém pegou umas gotas do óleo que vazara do motor do caminhão e acrescentou à mistura.

 

“Bom dia, Nivaldo”?  Diz o médico pegando o vidro que o paciente lhe passa.

 

Puxou o microscópio, colocou a urina na lâmina, que passou a examinar diante de um sorriso meio debochado do paciente. 

 

“Você tem uma infecção. Vai ficar bom, é só tomar este remédio por uma semana.”

 

“Quando o Nivaldo foi saindo do consultório todo faceiro, pronto pra contar pra todo mundo como enganara e velho com a mistura das urinas da família e do óleo do caminhão, foi chamado de volta: Mais uma coisinha, vizinho, a Carminha tá grávida. E antes que o Nivaldo se recuperasse do susto; e a Joana, com gonorreia."

 

“Enquanto o doente apavorado saía quase correndo com o chapéu na mão, o velho continuava a olhar no microscópio. De repente chama a secretária e pede que ela alcance o Nivaldo que já estava na rua.”

 

“Que foi agora, Doutor? Alguma outra desgraça?”

 

“Só mais uma coisa: o óleo do caminhão tá vencido, é bom trocar.”

 

RENATO DE PAIVA PEREIRA é empresário e escritor                               


Copyright © 2017  Notícias de Hoje -  Telefone: (65) 3358-5258 - Todos os direitos reservados.