Cultura

De Rage Against the Machine a Ultraje a Rigor, covers nacionais agitam Cuiabá neste fim de semana

Se uma "bomba-canção" existisse no rock'n'roll, a banda Rage Against The Machine estaria a postos para disparar riffs justiceiros e devastadores em direção à plateia. Munidos do espírito explosivo das boas composições do grupo, os mineiros do Renegades of Funk – cover do RATM – aterrissam em Cuiabá, nesta sexta-feira (20.04), para mais uma apresentação impactante no Malcom Pub.   

Sucesso de público, o grupo – composto por Francisco Leão, Nathan Augusto, Weimer Brandão e Marcos Carnavali – traz na bagagem oito anos de estrada e promete reproduzir com fidelidade o som da banda liderada por Zack de la Rocha.  

Inspirados pelas canções atômicas como "Killing in the Name", "Bombtrack" e "Take the Power Back", o grupo irá acender o rastilho – e a plateia – por meio de faixas como "Bullet in the Head" e "Know Your Enemy", entre outras. Aliás, a fúria das letras e a sonoridade farpada do RATM também se traduzem no diálogo do rock com outros estilos, como o hip hop, e parecem acertar em cheio a nostalgia de sua legião de fãs.   

“Os fãs do Rage Against the Machine, com certeza, irão enlouquecer com o show. A energia que rola nas apresentações da banda mineira é muito alta. Sem contar que o grupo passa uma mensagem contundente e que continua contemporânea. Será uma noite para fazer o Malcom ‘Rage Again’. No sábado não será diferente. Vai rolar shows pra lá de divertidos e interativos”, comenta Alexandre Matozo, um dos proprietários do Grupo Malcom.

 No dia 20 de abril também entram em cena os músicos mineiros da MWM com o melhor do rock nacional e internacional. O evento conta com a assinatura rock'n'roll da Container Produções e do Grupo Malcom. Ao mesmo tempo em que rola o Especial Rage Against The Machine no Pub, no Club é o techno que guiará a festa Basement – que traz em seu lineup os DJs Casteli, Igor Felipe e Zé Curvo.      

ESPECIAL ULTRAJE A RIGOR – No sábado (21.04), a banda MWM retorna para invadir a “praia” e o palco do Malcom Pub com o Especial Ultraje a Rigor. De Belo Horizonte para Cuiabá, os músicos chegam munidos de hits como “Inútil”, "Rebelde Sem Causa” e “Pelado”, entre outros. A noite ainda contará com banda Surpresa. Enquanto que, no Malcom Club, o Hip Hop e Reggaeton tomam conta da pista sob o comando dos DJs Danilo Soares e Mr. Nose.  

SERVIÇO – No dia 20 de abril, a entrada será de R$15. Já, no dia 21 de abril, o valor será de R$20. Vale ressaltar que a entrada concede o direito a circular pelos dois ambientes do Grupo Malcom, que está localizado na Avenida Miguel Sutil, número 10.240, no Bairro Santa Rosa (Ao lado do Gran Odara Hotel). Mais informações pela fan page: www.facebook.com/malcompub .

 

Cine Teatro exibe trajetória de Torquato Neto nesta terça-feira

A trajetória de um dos artistas centrais para o movimento cultural da Tropicália é o fio condutor de “Torquato Neto: todas as horas do fim”, atração desta terça-feira, (20.03), às 19h30, no Cine Teatro Cuiabá.

O filme abre a temporada 2018 da ação “Encontros com Cinema”, projeto realizado pelo Cine Teatro Cuiabá em parceria com a Pró-reitoria de Cultura, Extensão & Vivência (Procev), Cineclube Coxiponés e o curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso.

Os participantes são estimulados a conhecer ou revisitar filmes de cineastas prestigiados no circuito autoral e independente, formando plateias para o cinema que está distante das salas de exibição do circuito comercial da cidade de Cuiabá, além de estimular a prática social de frequentar uma sala de cinema e estabelecer vínculos não apenas com os filmes exibidos, mas também com outros participantes da ação.

Entre março e outubro desse ano haverá exibição de filmes com essa ideia. Nas primeiras terças-feiras do mês, a Sessão Ciné France exibirá filmes franceses em parceria com a Cinemateca da Embaixada da França e o Institut Français.

Nas segundas terças-feiras do mês, a Sessão Realizadores de Mato Grosso exibirá uma seleção de curtas de realizadores do estado.

Nas terceiras terças-feiras do mês (como é o caso desse 20 de março), a Sessão Vitrine Petrobrás projeta em Cuiabá os filmes da Vitrine Filmes recém-lançados no circuito brasileiro de cinema.

E, finalmente, nas últimas terças-feiras do mês, o foco do Ciclo Almodóvar recai sobre a obra do cineasta espanhol Pedro Almodóvar.

A curadoria e mediação da ação é de Diego Baraldi e Ana Maria Souza. Para a Sessão Realizadores de Mato Grosso, Caroline Araújo e Keiko Okamura colaboram na organização e mediação das sessões.

Sinopse do filme

Torquato Neto (1944-1972) vivia apaixonadamente as rupturas. Atuando em múltiplas frentes – no cinema, na música, no jornalismo –, o poeta piauiense engajou-se ativamente na revolução que mudou os rumos da cultura brasileira nos anos 60 e 70. Foi um dos pensadores e letristas mais ativos da Tropicália, parceiro de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Jards Macalé. Junto à arte marginal, radicalizou sua atuação e crítica cultural, com Waly Salomão, Ivan Cardoso e Hélio Oiticica. Por fim, rompe com sua própria vida. Suicida-se no dia de seu aniversário de 28 anos.

A entrada é simbólica e serve de taxa de manutenção do Cine Teatro Cuiabá: R$4,00 (inteira) e R$2,00 (meia). 

 

 

Por que as crianças acreditam (ou não) que o Papai Noel existe?

83% das crianças de cinco anos pensam que o Papai Noel é real, segundo um estudo

El País

Natal chegou e com ele os mitos que o acompanham: o mais importante deles é o do Papai Noel. Nesta época, muitas crianças escutam a história de um homem que vive eternamente, mora no Polo Norte, sabe o que todas as crianças do mundo querem, dirige um trenó puxado por renas voadoras e entra nas casas através da chaminé, que a maioria das crianças nem sequer possui.

Dados os inúmeros absurdos e as contradições da história, é surpreendente que as crianças acreditem nisso. No entanto, a pesquisa que realizamos no meu laboratório mostra que 83% das crianças de cinco anos pensam que o Papai Noel é real.

Por quê?

Uma vantagem evolutiva?

Na base desse paradoxo está um ponto de vista de fundo segundo a qual a natureza das crianças pequenas é intrinsecamente crédula –ou seja, elas acreditam em tudo que lhes contam–, e não racional.

O célebre etólogo e escritor Richard Dawkins propôs em um ensaio de 1995 que as crianças são crédulas por natureza e propensas a acreditar em quase tudo. Ele insinuou que acreditar era uma vantagem evolutiva para os pequenos. E ilustrou isso de forma bastante convincente com o exemplo de um menino que vivia perto de um pântano infestado de jacarés. Dawkins argumentou que um menino cético que tende a avaliar criticamente a recomendação dos pais de não tomar banho no pântano tem menos probabilidade de sobreviver do que outro que a acata sem pensar.

Essa ideia de que as crianças pequenas acreditam nas coisas facilmente é compartilhada por muita gente, entre elas o filósofo Thomas Reid do século XVIII e psicólogos do desenvolvimento, que argumentam que as crianças têm uma forte inclinação para confiar no que as pessoas lhes dizem.

É possível que elas não sejam muito diferentes dos adultos?

No entanto, a pesquisa que realizamos no meu laboratório mostra que, na realidade, as crianças são consumidoras racionais e reflexivas de informação. Na verdade, em grande parte usam as mesmas ferramentas que os adultos para decidir no que acreditar.

Quais são, então, algumas das ferramentas que os adultos usam para decidir no que acreditar e que provas temos de que as crianças dispõem delas? Vou me concentrar em três. Uma é a atenção ao contexto em que a nova informação é inserida; a segunda é a tendência a avaliar essa nova informação, comparando-a com os próprios conhecimentos iniciais, e a terceira é a capacidade de avaliar a competência dos outros no assunto.

Vejamos primeiro o contexto.

Imagine que você lê um artigo sobre uma nova espécie de peixe que chamaremos de “surnit”. Em seguida, imagine que você lê o artigo em dois contextos diferentes. Em um deles, seu médico chega atrasado e você está na sala de espera lendo o artigo em um exemplar da National Geographic, a revista oficial de uma sociedade científica.

No outro, você tropeça com o artigo sobre a descoberta enquanto espera na fila de uma loja e folheia a National Enquirer, uma publicação sensacionalista norte-americana distribuída em supermercados. Suponho que o contexto em torno da sua introdução a essa nova informação orientaria seu julgamento sobre a existência real do novo peixe.

Em essência, isso foi o que fizemos com as crianças. Falamos a elas sobre animais desconhecidos, como os surnits. Alguns ouviram o que lhes contamos em um contexto fantástico, no qual dissemos que dragões ou fantasmas capturavam os peixes. Outros souberam da existência deles em um contexto científico, no qual explicamos que médicos ou pesquisadores os utilizam.

Com apenas quatro anos, a probabilidade de as crianças afirmarem que os surnits existiam realmente era maior quando tinham ouvido falar deles no contexto científico do que no fantástico.

Como as crianças usam o conhecimento e a autoridade

Uma das principais maneiras que os adultos têm de aprender coisas novas é ouvir outras pessoas falarem sobre elas. Imagine que você ouve um biólogo marinho falar sobre uma nova espécie de peixe ou seu vizinho, que normalmente fala com você de notícias sobre abduções de extraterrestres. Sua avaliação da autoridade e da confiabilidade de ambas as fontes provavelmente orientará suas ideias sobre a existência real do peixe.

Em outro projeto de pesquisa, apresentamos às crianças animais desconhecidos para elas que poderiam ser possíveis (por exemplo, um peixe que vive no oceano) ou impossíveis (por exemplo, um peixe que vive na Lua). Então nós lhes demos uma escolha entre descobrir por si mesmos se o ser realmente existia ou perguntando a alguém. Elas também ouviram o que lhes foi contado por um guarda de zoológico (um especialista) ou um cozinheiro (um não especialista).

O célebre etólogo e escritor Richard Dawkins propôs em um ensaio de 1995 que as crianças são crédulas por natureza e propensas a acreditar em quase tudo. Ele inclusive insinuou que acreditar era uma vantagem evolutiva

Descobrimos que as crianças acreditavam em seres possíveis e rejeitavam os impossíveis. As crianças tomaram a decisão comparando a informação nova com os conhecimentos de que já dispunham. No que diz respeito aos animais improváveis –aqueles que era possível que existissem, mas eram pouco frequentes ou estranhos–, a probabilidade de que acreditassem neles era maior quando aquele que afirmava que existiam era o guarda do zoológico do que quando era o cozinheiro.

Em outras palavras, as crianças usam a autoridade, como os adultos.

Os adultos são a explicação

Se as crianças são tão espertas, por que acreditam em Papai Noel?

A razão é simples: pais e outros adultos fazem todo o possível para alimentar o mito. Em um estudo recente, descobrimos que 84% dos pais declararam ter levado os filhos para ver mais de dois papais noéis vivos durante o Natal. The Elf on the Shelf [O Duende na Estante], que originalmente era um livro infantil ilustrado cujos protagonistas eram os duendes que informavam o Papai Noel como as crianças se comportavam quando o Natal se aproximava, agora é uma franquia multimilionária. Além disso, os correios dos Estados Unidos promovem o programa “Cartas do Papai Noel”, pelo qual envia respostas pessoais às cartas das crianças.

E por que nos sentimos obrigados a nos esforçar tanto? Por que o tio engraçado da família insiste em subir no telhado na véspera de Natal para fazer ressoar seus passos e tocar os sinos?

A resposta é, simplesmente, que as crianças não são irrefletidamente crédulas e não acreditam em tudo o que lhes contamos. Portanto, nós, adultos, temos que inundá-las de provas como os sinos no telhado ou os papais noéis vivos no shopping center.

Como as crianças avaliam

Considerando este esforço, seria basicamente irracional que as crianças não acreditassem no Papai Noel. Na verdade, ao fazê-lo estão exercendo sua capacidade de pensar cientificamente.

Em primeiro lugar, os pequenos avaliam as fontes de informação. Como a pesquisa que estamos realizando no meu laboratório indica, existem mais probabilidades de que acreditem no que um adulto diz sobre o que é real do que no que uma criança diz.

Em segundo lugar, eles usam a evidência (por exemplo, o copo de leite vazio e os biscoitos meio comidos da manhã de Natal) para chegar a uma conclusão sobre se esse ser existe ou não. Outro estudo do meu laboratório mostra que as crianças usam provas semelhantes para orientar suas crenças sobre a Bruxa das Balas, um ser fantástico que as visita na noite do Halloween e deixa brinquedos novos em troca de balas.

Em terceiro lugar, os estudos mostram que, à medida que a compreensão das crianças se torna mais sofisticada, elas costumam fazer mais perguntas sobre os pontos absurdos do mito do Papai Noel; por exemplo, como um homem gordo pode caber em uma chaminé estreita ou como os animais podem voar.

Você está se perguntando o que dizer ao seu filho?

Alguns pais se perguntam se, ao participar do mito do Papai Noel, estão prejudicando seus filhos. Tanto os filósofos como os blogueiros argumentaram contra a perpetuação da “mentira do Papai Noel”, e alguns chegaram a afirmar que isso poderia levar à desconfiança permanente em relação aos pais e outras autoridades.

Então, o que os pais deveriam fazer?

Não há evidências de que acreditar e acabar deixando de acreditar no Papai Noel afete significativamente a confiança nos pais. Além disso, as crianças não só possuem as ferramentas para descobrir a verdade, como participar da história do Papai Noel pode ser uma oportunidade para que elas exercitem essas habilidades.

Então, se você acha que seria divertido para você e sua família convidá-lo a ir à sua casa no Natal, faça isso. Não vai provocar prejuízo algum aos seus filhos e é possível que eles aprendam algo.


A TV e o cinema mudaram e o império Disney decidiu contra-atacar

 Aliança entre Disney e Fox procura sobreviver à morte da TV a cabo e deter a Amazon e a Netflix

El País

Disney resiste com unhas e dentes a ceder terreno desse império cuja construção consumiu muitos anos e dinheiro. O grupo de entretenimento se vê pequeno e isso cria uma desvantagem para competir em uma indústria em que os gigantes da tecnologia, a televisão a cabo e as empresas de telecomunicações tentam se estabelecer como alternativas aos meios tradicionais para atrair o consumidor. Então, para ganhar tamanho, a casa do camundongo Mickey comprou os ativos de outro velho titã, a Twenty-First Century Fox.

Robert Iger, diretor-geral da Disney, e Rupert Murdoch, dono da Twenty-First Century Fox, são grandes rivais. Mas também se respeitam, e muito. Ao ponto de se reunirem ocasionalmente para falar sobre como vão as coisas na indústria que dominam. No final do verão discutiram sobre as novas forças que estão transformando o negócio. Concordaram na análise.

Iger viu naquele momento uma janela de oportunidade para saber de Murdoch se estava disposto a fazer algo juntos para preservar o que tinham construído. O que não esperava era que ele aceitasse sua proposta tão rapidamente, algo que uma década atrás teria sido impossível de imaginar. O pacto reflete, de fato, o medo e a ansiedade que dominam Hollywood por causa da rápida transformação da indústria.

O negócio do entretenimento é controlado por quatro grandes conglomerados, considerados há até pouco tempo como sacrossantos: Disney, Time Warner, Comcast (NBCUniversal) e Twenty-First Century Fox. A esse grupo somam-se CBS Corporation, Viacom (Paramount), Sony e Lions Gate. Avançavam na mesma direção até o surgimento de Netflix, Amazon, Alphabet (YouTube), Facebook e, potencialmente, Apple. Pela primeira vez em um século, os consumidores se deslocam a outras plataformas em busca de conteúdo e isso está criando vários canais de distribuição. “São eles que nos dirigem para o que querem ver e como”, reconhece Jeffrey Katzenberg, cofundador da DreamWorks, “não nós”. Os novos meios e os antigos tentam caçá-los com uma oferta competitiva, “todo mundo quer vender conteúdo”.

Iger substituiu Michael Eisner em 2005. Nos últimos 15 anos, o grupo assumiu o controle de marcas conhecidas no mundo do entretenimento para fortalecer seu império, como Pixar, ESPN, Marvel Entertainment ou Lucasfilms. E também adquiriu plataformas de distribuição e tecnologias para levar programas ao consumidor, como oPlaydom, Maker Studios ou, mais recentemente, BAMTech.

Pela primeira vez em um século, os consumidores se deslocam a outras plataformas em busca de conteúdo e isso está criando vários canais de distribuição

A Disney é uma máquina de criação de conteúdo que é quase impossível de replicar, como a Fox. Juntas, controlam 40% das receitas de bilheteria nos EUA. Apesar do seu poder, tem uma vulnerabilidade maior: não controla os canais através dos quais filmes e séries são distribuídos. As receitas de sua divisão de mídia, a mais poderosa, estão sob pressão porque mais e mais lares estão prescindindo das assinaturas de televisão a cabo.

Leslie Moonves, diretor-geral da CBS Corporation, vê a situação mais difícil. “Competimos com monstros”, admite, “a Disney é seis vezes maior do que nós, como a Comcast. A capitalização da Netflix é enorme e a Amazon produz conteúdo. Continuamos sendo uma pequena empresa de produção à moda antiga. Teremos de nos associar com outras empresas de conteúdo e distribuição”. A Comcast começou a mudar o panorama com a NBCUniversal em 2009 e, no ano passado, comprou a DreamWorks Animation. A AT&T comprou há dois anos o distribuidor de televisão por satélite DirecTV e continuou depois com a Time Warner, que controla a HBO, a DC Comics e os estúdios Warner. A Lionsgate adquiriu a Starz e a Discovery Communications acaba de entrar em um acordo com a Scripps Networks.

Rupert Murdoch também sondou a Time Warner alguns anos atrás com a intenção de fazer uma fusão, porque avaliou que lhe daria o tamanho que precisava para competir em um mercado que estava começando a se transformar. Mas o jogo de forças no setor de mídia mudou muito desde então. A única maneira para a Fox competir com novos rivais no streaming é se concentrar no conteúdo ao vivo. Não são só as cadeias tradicionais que perdem valor. Os estudos também se depreciam e a produção de conteúdo está cada vez mais cara. A solução para o problema, de acordo com a estratégia de Iger, passa por criar um novo modelo de distribuição direta que dê ao consumidor acesso fácil e sem intermediários a um conteúdo de qualidade, através do dispositivo que quiser e quando quiser.

Mudança radical

Há uma década, o uso maciço dos telefones smartphones começou a mudar a forma como as pessoas consomem conteúdo. Reed Hastings viu esse potencial com a Netflix. Transformou seu serviço de envio de filmes alugados por correio postal em uma plataforma para visualização online a partir de dispositivos eletrônicos. ABC, NBC e Fox criaram a Hulu, onde colocaram o que já não utilizavam. E, em seguida, a Amazon se juntou.

A compra da Fox reafirma que a estratégia da Netflix funciona. A Disney aspira a ser um concorrente extraordinário. O grupo já está desenvolvendo sua plataforma de streaming, que começará a operar em 2019, e o pacote de ativos que comprou da Fox inclui a participação na Hulu, onde cada uma controla 30%. Paralelamente, retirará seus filmes da Netflix. Vai levar tempo para que tenha uma videoteca como a da Netflix e da Amazon. Para os analistas da eMarketer, a chave estará no fato de que o conteúdo seja suficientemente atraente para ser competitivo no momento de vender assinaturas havendo tantos serviços alternativos. A compra da Fox permitirá incluir títulos como X-MenPai de FamíliaArquivo X ou Os Simpsons em seu repertório.

“A nova empresa resultante da fusão”, dizem os analistas da Moody’s, “terá uma propriedade intelectual muito importante para competir de forma mais agressiva diante da disrupção e em uma indústria em plena mutação, onde os consumidores têm cada vez mais capacidade de escolher como e quando consumir conteúdo”. O acordo com a Fox deixa a Sony como o único estúdio com direitos para explorar personagens da Marvel.

Isso resolve uma segunda grande vulnerabilidade. A Disney tem um produto concentrado no consumo familiar. A compra da Fox permitirá diversificar seu público ao incorporar personagens e conteúdo para adultos com histórias mais complexas, como Deadpool ou Wolverine. Também terá Avatar em seu arsenal, que já está presente sob licença em seu parque de diversões Walt Disney World Resort. O acordo com a Fox também reunirá o universo Star Wars. A Disney controla os direitos de todos os filmes graças à compra, há cinco anos, da Lucasfilm. Mas os Murdoch mantiveram os direitos sobre a versão original produzida pela Fox em 1977 e os primeiros personagens da saga. Isso abrirá, de acordo com o próprio Iger, mais oportunidades para uma franquia inesgotável.

Laura Martin, analista da Needham, ressalta que a operação também traz uma escala aos ativos da Fox que os Murdoch não poderiam conseguir. Ross Gerber, da Gerber Kawasaki, diz que o negócio de mídia muda tão rapidamente que a Disney poderia acabar sendo comprada caso não se mexesse. Por isso, as implicações, prevê, serão enormes. Gerber vê que o negócio de entretenimento será uma coisa da Disney, Netflix e HBO, se a AT&T conseguir fazer a fusão com a Time Warner. Os analistas da RBC Capital e da Macquarie concordam ao antecipar que esse aumento de tamanho por parte da Disney pode desencadear uma fúria de fusões e aquisições. Todos na indústria agora procuram ganhar escala.

A operação traz uma escala aos ativos da Fox que os Murdoch não poderiam conseguir sozinho

Martin indica que esses movimentos farão que Viacom e CBS voltem a cogitar uma fusão. E com os ativos mais valorizados escasseando, Lionsgate, MGM, Sony e Paramount podem entrar no jogo. A outra opção que os pequenos têm é adotar um modelo de negócio diferente que passaria por condensar seus canais de distribuição, eliminando cadeias. É um passo difícil, mas não impossível. A aposta da Disney não é apenas para reinar no streaming. A compra da Fox permitirá que ela busque um público global graças à britânica Sky, a indiana Star e canais como National Geographic. Também reforça a posição global da ESPN, que terá direitos de transmissão de eventos esportivos na Europa e na América Latina. É um negócio em que estão penetrando Amazon, Facebook e Verizon com Yahoo e AOL.

Conforme observado pela Gerber Kawasaki, graças à operação com a Fox, a Disney cobrirá todas as regiões. “Seus tentáculos chegarão a todos os cantos do planeta”, acrescenta, lembrando que os grandes grupos até agora concentraram suas estratégias nos mercados dos EUA e da Europa. A tecnologia móvel permite levar o vídeo a bilhões de pessoas em todo o mundo. A Netflix já tem sua plataforma operando em uma centena de países e possui 109 milhões de assinantes. Sua expansão está sendo muito agressiva. Mas o futuro do streamingnão será de um único ator nesse mercado e a operação de Iger o obrigará a depender cada vez mais de sua capacidade de gerar conteúdo próprio. O plano de Hastings é investir 8 bilhões de dólares (cerca de 26,7 bilhões de reais) em programação em 2018, para garantir que 50% da oferta seja original no fim do próximo exercício. É a mensagem que envia a Hollywood para dizer que é dono de seu destino. E garantir que não levará um golpe quando os estúdios lhe retirarem suas licenças. A nova oferta inclui 30 séries animadas.

A integração da Disney e da Fox levará até 18 meses. Isso permite que a Netflix, que está vendo suas receitas crescerem a uma taxa de 33% e seus usuários de 25%, continue a investir em conteúdo para ganhar mais consumidores enquanto o conglomerado avança com a operação. Na mesma semana em que o acordo foi anunciado, a plataforma recebeu nove indicações ao Globo de Ouro. Foi superada apenas pela rede HBO, da Time Warner.

 

Governo quer destinar recursos de loterias diretamente a projetos culturais

Agência Brasil

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, disse hoje (19) que o governo está elaborando um projeto de lei para destinar recursos das loterias federais para projetos culturais. “Diretamente da Caixa para os proponentes. Isso vai ser um programa de fomento à cultura na ordem de R$ 350 milhões. O maior que já foi feito na história do país”, disse Leitão.

Atualmente, a Caixa repassa valores arrecadados com as loterias para o Fundo Nacional de Cultura, que funciona por meio da renúncia fiscal; em 2016, foram mais de R$ 359 milhões. O Fundo Penitenciário Nacional, o Fundo Nacional de Saúde, o Programa de Financiamento Estudantil (Fies), a Seguridade Social e o esporte nacional também são beneficiários.

Assim como acontece com a Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet, a nova lei deve garantir repasses diretos aos projetos culturais.

Segundo Leitão, o ministério também deve anunciar em 2018, no âmbito da política do audiovisual, investimentos de R$ 700 milhões por ano ao setor, durante 10 anos. “O que vai colocar nosso setor audiovisual entre os cinco maiores do mundo”, disse, explicando que os recursos serão descentralizados, levando em conta a diversidade cultura e regional do país. Para o Norte, Nordeste e Centro-Oeste serão reservados 30% dos recursos e para o Sul, 10%.

Classificação indicativa em museus

Também para 2018, o governo federal vai trabalhar para a aprovação, no Congresso Nacional, de um projeto de classificação indicativa para museus e exposições culturais. Segundo o ministro, a minuta do projeto já foi apresentada ao Palácio do Planalto. “Nós defendemos, de maneira enfática, a adoção de classificação etária também no que diz respeito a museus e centros culturais, exposições e outras atividades, como acontece no cinema, na TV e nos games”, disse Leitão.

Polêmicas em exposições artísticas pelo país levaram o ministério a propor a medida. Em setembro, a exposição QueerMuseu foi suspensa, em Porto Alegre, após protestos nas redes sociais, assim como a apresentação de Histórias da Sexualidade, que levou o Museu de Arte de São Paulo (Masp) a proibir, pela primeira vez, a entrada de crianças e adolescentes para visitar a mostra. O museu acabou voltando atrás e liberando a entrada de menores de 18 anos, desde que acompanhados pelos pais ou responsáveis.

“Penso que se tivéssemos um sistema de classificação funcionando, boa parte dessas polêmicas e controvérsias não teriam acontecido ou não teriam a dimensão que tiverem”, disse, explicando que, enquanto não há a adoção de um sistema único, o Ministério da Cultura orientou que as próprias entidades culturais adotem um sistema de autoclassificação.

Ordem do Mérito Cultural

Hoje, o Ministério da Cultura entrega a Ordem do Mérito Cultural 2017, principal homenagem pública da cultura brasileira. Serão condecoradas 32 personalidades e instituições que contribuíram para a cultura nacional. Este ano, o evento tem como tema “Cultura, Inovação e Empreendedorismo”.

“O tema homenageia artistas, criadores e empreendedores culturais que, por meio do seu esforço e dedicação, contribuíram não apenas para o engrandecimento da cultura, mas para o fortalecimento da cultura como atividade econômica”, disse Leitão, contando que as atividades culturais respondem por 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, R$ 10 bilhões em impostos, além de 1 milhão de empregos diretos.

O ministro ressaltou que as mudanças na Lei Rouanet e na Lei do Audiovisual são mecanismos que ampliam o acesso e aumentam o volume de recursos, promovendo o empreendedorismo cultural. “A política cultural é promoção de desenvolvimento econômico no país”, disse.


O destemido balé das bailarinas cegas

Escola de balé para cegos ajuda a levar coragem para realizar um sonho de diversos alunos em São Paulo

El País

“Um, dois, três, pula, quatro. Olha o copo d’água na cabeça! Não deixem ele cair! Estica mais esta perna!”. Os comandos da professora de balé Fernanda Bianchini, 38, davam o tom dos passos finais para a apresentação de fim de ano da turma infantil da escola que leva seu nome, na Vila Mariana, em São Paulo. “Abaixa os ombros! Sorriso no rosto!”, repetia, ao som de uma animada música clássica. “Verônica, hoje à tarde virão os príncipes e as cinderelinhas. Vamos fazer o ensaio completo, tá?", disse Fernanda para Verônica Batista, 28. “Tudo bem”, respondeu a aluna e também professora na escola, enquanto se alongava antes do ensaio começar.

A apresentação final seria em dois dias. Depois disso, algumas turmas seriam suspensas para as férias, outras ainda teriam algumas poucas aulas antes do Natal. Logo após as crianças, começaria o ensaio das adultas, que encarariam uma série de repetidas apresentações de balé clássico, seguidas de sapateado. Muitas das alunas passariam aquele dia inteiro na escola.

As aulas de dança da turma de bailarinas de Verônica, todas na faixa dos 30 anos, é assistida por um aluno especial: Duke, um pastor alemão adulto. Passa horas no canto da sala, posicionado abaixo da barra, acompanhando com os olhos vidrados a cada rodopiada que sua dona, Marina Guimarães, 31, dá de costas para o espelho. Duke é um cão-guia e já está acostumado com o ambiente. “Vou tomar um café, Duke, você fica aqui?”, disse Marina ao cão, que levantou-se no mesmo instante e postou-se prontamente ao lado da bailarina, acompanhando-a até a pequena cozinha da escola. Marina, que é também funcionária pública, nasceu prematura e perdeu a visão quando teve sua retina queimada ainda na incubadora. Assim como ela, grande parte dos alunos da escola não enxerga nada ou quase nada.

Marina faz aulas de balé desde os 10 anos de idade, quando começou a aprender a dança na ONG Instituto de Cegos Padre Chico. Ali, ela conheceu Fernanda Bianchini, que fazia trabalho voluntário com a família na instituição. “Eu fazia balé desde os três anos de idade. Quando estava com 15, fui convidada pela ONG, onde eu já era voluntária, para dar aulas às crianças que eram assistidas pelo local”, conta Fernanda. Quando recebeu o convite, titubeou. “Achei que eu não conseguiria, nunca tinha dado aula antes, ainda mais para crianças tão especiais”.

A bailarina e professora, e hoje também fisioterapeuta, lembra que, na época, os pais lhe deram um conselho valioso. “Eles me disseram ‘filha, nunca diga nãopara um desafio, pois são sempre desses desafios que partem os maiores ensinamentos que temos nas nossas vidas”. Com isso em mente, Fernanda decidiu aceitar o convite. “Mas não foi simples”, lembra. “No primeiro dia de aula, fui ensinar o primeiro passo o echappé sauté, que a bailarina tem que saltar abrindo as pernas e saltar de novo fechando as pernas. E pra ficar mais fácil o processo de ensino e aprendizagem, eu disse a elas: imaginem que vocês estão saltando fora de um balde e depois dentro de um balde”, recorda-se a professora. “Aí, para a minha surpresa, uma aluna levantou a mão e disse ‘tia, mas o que é um balde? Eu nunca vi”. Neste momento, Fernanda percebeu que tinha que primeiro entrar no universo dos deficientes visuais, para só então apresentar o seu mundo, do balé clássico, para eles.

A bailarina Marina Guimarães e o cão Duke.
A bailarina Marina Guimarães e o cão Duke. TONI PIRES
 

Deste pensamento nasceu a metodologia que ela desenvolveu para ensinar suas alunas cegas a dançar balé. As aulas são todas por contato físico: as alunas tocam o corpo dos professores para entenderem em qual posição estão. “Os saltos são iniciados com elas deitadas, com as pernas para cima”, explica Fernanda, que foi fazer pós-graduação em equilíbrio e postura.

Das aulas na ONG, Fernanda abriu sua própria escola, em 1995. Hoje, 350 alunos aprendem balé, sapateado, dança do ventre e teatro. A maioria, assim como Marina Guimarães, a dona de Duke, portadores de deficiência visual completa ou parcial. As aulas são gratuitas e por isso, a escola, que também recebe deficientes físicos, auditivos e intelectuais, é mantida por doações de empresas e pessoas que acreditam no projeto. "Temos mais de 100 pessoas na nossa lista de espera", orgulha-se Fernanda. “As pessoas não percebem que a deficiência pode entrar na vida de qualquer um a qualquer momento”.

"Olhei para o portão e disse: eu vou"

Verônica, a aluna e professora mencionada no início desta reportagem, é um desses exemplos de pessoas que foram pegas de surpresa. Aos nove anos, começou a sentir fortes dores de cabeça. A família a levou ao médico, mas não houve nenhum diagnóstico. Passaram-se meses de dor até que ela fosse parar no hospital já sem enxergar nada. Estava com um tumor na cabeça, que, mesmo após a cirurgia de remoção, levou consigo toda a sua visão. Pouco tempo depois, Verônica recuperaria 5% do que perdera e assim ela permanece até hoje.

Na época em que perdeu a visão, Verônica se recorda que as demais crianças não queriam mais brincar com ela. “Elas tinham medo de ficar cegas também”, diz. A escola, ela conta, quase lhe foi tirada também. “Minha avó era quem tinha de me levar e buscar todos os dias, mas ela foi ficando cada vez mais cansada”, conta ela, que perdera a mãe muito cedo e fora criada pela avó. “Até que ela me disse que não me levaria mais”. Aquele seria, de fato, o primeiro grande desafio de Verônica. “Eu podia ficar em casa para sempre, ou encarar meu medo”, diz. “Então eu disse à minha avó que ia sozinha. Comecei a descer as escadas de casa na esperança de que ela estivesse atrás de mim, mas ela não estava. Me lembro de chegar lá fora, olhar para o portão e dizer ‘eu vou”. Chegando na escola, a primeira coisa que Verônica fez foi ligar para a avó e contar onde conseguira chegar. Depois disso, seus passos ficaram cada vez mais largos.

Frequentar as aulas de balé seria seu segundo grande desafio. “Eu não tinha apoio da minha família, mas tinha a vontade de dançar”, conta. Sozinha, ligou na escola de balé de Fernanda, perguntou sobre um ponto de referência, pegou o ônibus e foi. Chegando no ponto, pediu ajuda a um taxista que, por conhecer o bairro, sabia onde era o local. “Ele me deixou na porta da escola. E eu nunca mais parei”. Hoje, Verônica é aluna e professora de balé e dá aulas de braile também.

"O balé me levou à Paralimpíada"

Marina Guimarães, além do apoio de Duke, também conta com sua família. "Eles sempre me apoiaram. Mas quando eu era criança, fazia natação também e meus pais diziam que com a natação eu poderia ir para a paralimpíada", lembra ela. Mesmo assim, decidiu deixar a piscina e se dedicar somente aos palcos. O que ela e nem sua família esperavam é que o balé, este sim, lhe levaria aos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012. "Fizemos a apresentação de encerramento dos jogos", conta. "Foi super difícil, porque a música tinha um delay e ouvíamos no fone de ouvido em um tempo, e fora do fone, em outro. Não podíamos usar os dois fones, pois tínhamos de escutar também os professores, que ficam na coxia, nos dando as orientações", lembra ela. No final, deu tudo certo. "Acabei, enfim, indo às paralimpíadas. Acho que de alguma maneira era para eu estar lá".

Chegar na escola de balé de Fernanda Bianchini é entrar em um outro universo. Principalmente se não estiver acostumado a conviver com um dos 6,5 milhões de brasileiros que têm alguma deficiência visual. Na entrada, a equipe que trabalha na escola logo aconselhou a reportagem: "se vocês vão tirar foto, fiquem no canto direito da sala, porque as alunas podem esbarrar nos equipamentos e derrubar sem querer". Dá medo mesmo. Mas não é pelos equipamentos que podem cair. É de não saber usar os termos corretos, de sentar ou parar em algum lugar que é passagem das alunas, de brincar com o cão Duke enquanto ele está em horário de trabalho. Parece que ali todo mundo tem algum tipo de medo. Só as bailarinas que não têm.


Airto Moreira, o músico que o mundo venera e o Brasil pouco conhece

O percussionista que tocou ao lado de Miles Davis e fez carreira no exterior volta ao Brasile

El País

Há meio século, Airto Guimorvan Moreira (Itaiópolis, 1941) desembarcava no aeroporto JFK de Nova York sem uma ideia exata do que seria de sua vida. “Só sabia que queria tocar, fazer música, e Nova York parecia ser o local adequado para isso”. Não se enganou.

Quem visita o site do artista se surpreende com a foto de um jovem Airto de gravata borboleta e paletó, recebendo o primeiro prêmio de um concurso para cantores principiantes. “Meu primeiro “trabalho” foi de cantor. Canto desde os 5 anos. Não havia festa de aniversário em que minha mãe não anunciasse: “e agora meu filho vai cantar para vocês...” e eu cantava qualquer coisa, apesar de me aborrecer, mas sabia o que me esperava em casa se não o fizesse. O que eu gostava era de tocar, o que fosse, não me importava. Pegava um instrumento e começava a tocar sem saber muito bem o que fazia”.

Com 17 anos, Airto viajou a São Paulo para tentar a sorte. “Andei pelas boates procurando trabalho, mas naquela época os empresários só queriam cantoras, de modo que comecei a levar a sério isso de tocar um instrumento. Escolhi a bateria”.

Passar da bateria à percussão foi algo natural para Airto. “Não sei como aconteceu, simplesmente comecei a tocar percussão... e até hoje. Eu não planejo as coisas, as coisas me acontecem...”. A vida e o contato com outros percussionistas, afirma, lhe ensinaram tudo o que precisava saber sobre o instrumento. “Existe algo que caracteriza os percussionistas, e é que influenciamos uns aos outros de uma forma, digamos, natural. Por exemplo, em Nova York, muitos iam me ver e viam que eu tocava instrumentos que não eram comuns, e me perguntavam, “Escuta Airto, o que é isso?”. Em pouco tempo eles estavam tocando o mesmo instrumento. Mas eu fiz a mesma coisa com Naná Vasconcelos. A primeira vez que o vi tocando berimbau não entendi absolutamente nada e, no fim das contas, acabei tocando-o também”.

De Nova York ao Rio de Janeiro e de volta. A carreira improvável de Airto o afastaria das turbulências musicais do Brasil dos anos 60 – Tropicália e derivados – para aproximá-lo da trepidante cena jazzística nova-iorquina. “Eu não sabia o que era o jazz aqui no Brasil, pensava que o conhecia, mas não... por isso fui aos Estados Unidos, para inteirar-me”.

Foi através do saxofonista Cannonball Adderley que o nome de Airto Moreira chegou aos ouvidos de Miles Davis. E foi por ele que “o brasileiro”, como era conhecido nos ambientes musicais de Nova York, pôde participar das seminais sessões de gravação que deram origem ao álbum “Bitches Brew”. Em sua autobiografia, o trompetista lembra dos problemas de adaptação do recém-chegado, que imaginava “intimidado” por sua presença: “claro que estava intimidado, mas não por Miles e sim pela música, por ser tão “natural”, o que a fazia muito difícil de assimilar. E eu estava ali, no meio, tentando responder a toda aquela energia em um nível de igualdade com músicos que tocavam juntos por metade da vida... não havia lugar para mim. O que fiz? Comecei a tocar muito, mas muito forte. Até que, um dia, Miles se aproximou e me disse: “não precisa tocar tão forte, simplesmente...toque”. Fiquei totalmente desconcertado: o que ele queria dizer com isso? Porque Miles falava pouco, mas quando o fazia, sua palavra era lei. E tinha razão: eu estava acabando com minhas mãos sem outro propósito além de me destacar entre tudo aquilo, o que não fazia o menor sentido. Então comecei a tocar como se estivesse com medo, você sabe, esse “cha-chá” suave que acompanha um cantor sem voz, esse tipo de coisa... então alguns dias depois Miles veio conversar de novo. “Escute bem, tudo o que você precisa fazer é isso mesmo, escutar e tocar. Só isso”. Essa foi a melhor lição que recebi dele. A partir desse momento, comecei a ouvir a música, a ouvi-la de verdade... porque a música é como um filme, você precisa vê-lo em seu conjunto, os personagens, o enredo e, a partir daí, desenvolver seu papel”.

O EL PAÍS preparou uma playlist no Spotify que perpassa alguns dos principais momentos da carreira do percussionista. A lista começa com sua passagem, ainda no início da carreira, pelo grupo Quarteto Novo; passa pelo seu trabalho solo em discos antigos e recentes, como o novo lançamento Aluê; e termina com sua contribuição ao disco Bitches Brew, de Miles Davis.

De Miles a Chick Corea (Return to Forever), Joe Zawinul (Weather Report), Mickey Hart (Grateful Dead)... dois anos e meio após sua apresentação à sociedade, o percussionista e cantor estava construindo um caminho inédito de renovação para o jazz; caminho que muitos outros seguiriam... “tudo vem de minha ideia do que é um percussionista. Advogo por uma percussão natural. Eu me interesso pelo som, as cores... para mim, o percussionista é um pintor que se move entre os instrumentos de acordo com a música. É a cola que une e dá coesão ao conjunto. Não se trata de impor-se, mas de compartilhar. Não incomodar, mas inspirar”.

Vivendo nos Estados Unidos há mais de meio século, Airto Moreira não pisava em solo brasileiro “há alguns anos”, esclarece, mas sem esclarecer muita coisa. E ainda assim. A relativa frieza com que a visita do filho pródigo foi recebida pela imprensa, não pelo público, mostra um fato indiscutível: o músico brasileiro mais influente fora do país desde Carmen Miranda, João Gilberto e Tom Jobim, está longe de ser profeta em sua terra. “Reconheço que não estou por dentro da atualidade brasileira, mas não é algo que me preocupe muito, porque estou imbuído do espírito do Brasil e sei que tudo o que vier de um país com semelhante patrimônio musical, será bom”.

Sentado em um canto do palco, rodeado por um fascinante arsenal de Objetos Musicais não Identificados, incluindo um jogo de chinelos usados, Airto se apodera da audiência que veio escutá-lo em sua única apresentação carioca, na sala Blue Note Rio. O furacão desatado pelo mais do que septuagenário artista e seu quinteto – o mesmo que o acompanha no último disco, o primeiro gravado no Brasil pelo artista, com as contribuições do guitarrista José Neto e a filha do maestro, Diana Moreira, cantando – acaba com qualquer reticência que pudéssemos ter sobre sua forma. Sua mensagem é iluminadora, vibrante, luminosa... o que essa cidade bela e caótica precisa.


Plano Nacional de Cultura ganha nova plataforma interativa

Está no ar a nova plataforma do Plano Nacional de Cultura (PNC), mais acessível e com facilidades para pesquisar informações relevantes, como monitoramento das metas, vídeos de capacitação e legislação. A interação com os usuários também foi simplificada: agora basta preencher um cadastro com três itens - e-mail, estado de origem e tema de interesse. A partir dessas informações, o Ministério da Cultura (MinC) poderá interagir com a sociedade.
 
Na plataforma é possível conhecer detalhadamente o Plano Nacional de Cultura e seus desdobramentos. As abas apresentam o histórico da implantação do PNC, as 53 metas e um passo a passo esclarecendo as principais dúvidas, como a forma de adesão ao plano, a lei que o instituiu, os planos setoriais e territoriais, as capacitações e as ferramentas de consulta.
 
A atualização da plataforma contribui para o alcance da meta 48 do PNC, que prevê a implantação de uma ferramenta digital para acompanhamento das políticas culturais por, no mínimo, 100 mil usuários de diferentes regiões do país. Na aba "documentos" estão disponíveis relatórios de monitoramento das metas, mas também é possível acompanhar cada uma delas clicando no número específico.
 
Estão disponíveis cinco vídeos de formação à distância, elaborados em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), com orientações para elaboração dos planos municipais de cultura e capacitação de gestores culturais. Também é possível acessar informações sobre assessorias técnicas oferecidas pelo MinC aos gestores públicos estaduais e municipais que fazem parte do Sistema Nacional de Cultura (SNC).
 
A plataforma segue o novo modelo de identidade digital padrão do governo federal e atende às recomendações de acessibilidade na Internet. Na parte superior da plataforma há uma barra de acessibilidade com atalhos de navegação padronizados e opção de alterar o contraste da página. O desenho da plataforma permite o acesso pelos diversos navegadores.
 
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura

Senado aprova prorrogação do Recine e abre caminho para o Novo Audiovisual

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, comemorou a aprovação da Medida Provisória (MP) 796/2017 no Plenário do Senado, na tarde desta terça-feira (12/12). A MP, que prorroga a vigência do Regime Especial de Tributação para Desenvolvimento da Atividade de Exibição Cinematográfica (Recine) e os benefícios da Lei do Audiovisual até 31 de dezembro de 2019, foi aprovada na forma de projeto de lei de conversão (PLV 33/2017), que segue para a sanção presidencial. 
 
Para o ministro, a aprovação da MP 796/2017 representa a vitória de uma luta assumida pelo Ministério da Cultura (MinC). "Estamos muito felizes especialmente pelos benefícios que essa medida traz ao setor, não apenas pela prorrogação do Recine e da Lei do Audiovisual, mas também pela inclusão dos games, a elevação do teto por projeto para R$ 6 milhões, entre outros. O teor da medida vai ser um fator a mais no impulsionamento da indústria audiovisual", afirmou. De acordo com o ministro, o teto tem segurado o orçamento dos filmes brasileiros, o que os tornaria menos competitivos no mercado nacional e internacional. 
 
As previsões do ministro apontam para um cenário promissor e vem ao encontro do esforço empreendido pelo Ministério da Cultura para lançar o Novo Audiovisual, que irá alavancar e reformular a política do setor no País. "Acredito que em dez anos, o mercado brasileiro pode estar entre os cinco maiores produtores de cinema do mundo. Atualmente, a indústria audiovisual integra o campo da economia criativa, setor que responde por 2,64% do PIB, gerando mais de 1 milhão de empregos diretos. É um dos 10 setores que mais contribuem para o crescimento do País.
 
Sá Leitão alertou para a necessidade de incluir a previsão orçamentária do Projeto de Lei de Conversão no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA). "Hoje temos uma reunião com o presidente da Comissão Mista de Orçamento (CMO), senador Dario Berger (PMDB-SC), para discutir a inclusão da previsão orçamentária", destacou o ministro.

Como fica

A MP prorroga a vigência do Regime Especial de Tributação para Desenvolvimento da Atividade de Exibição Cinematográfica (Recine) e, também, da Lei do Audiovisual, até 31 de dezembro de 2019. O Recine permite a suspensão da cobrança do PIS, da Cofins, do Imposto de Importação e do Imposto sobre Produtos Industrializados nos investimentos de construção ou modernização de cinemas. O programa facilita, por exemplo, a compra e a importação de equipamentos destinados ao setor.
 
Relatora do projeto na Comissão Mista que analisou a medida, a senadora Marta Suplicy (PMDB-SP) apresentou parecer com a previsão que inclui os games produzidos de forma independente e os clipes musicais produzidos pela indústria videofonográfica entre os potenciais beneficiários dos Fundos de Financiamento da Indústria Cinematográfica Nacional (Funcines). Para os games, o incentivo não será válido para os de natureza publicitária, embora possa ser usado também para a coprodução envolvendo brasileiros.
 
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura

Jornalista Mirim fala sobre a cultura e a dança nos teatros em Goiânia

A estudante Giovana Almeida, de 10 anos, foi uma das vencedoras do Concurso Cultural Jornalista Mirim. Ela escreveu um texto sobre o cenário da cultura em Goiânia e mostrou como é uma aula de dança e de teatro. A estudante também falou da fundação do Teatro Goiânia. O texto virou uma reportagem exibida no Jornal Anhanguera 1ª Edição desta quinta-feira (3).

 

No curso de teatro da escola onde estuda, Giovana mostrou como é o ensaio de uma coreografia. Segundo ela, uma vez por semana, a turma faz exercícios de voz, alongamento, dança e interpretação de texto. No final do ano, os alunos farão uma apresentação.

A estudante Raissya Vitória, de 8 anos, faz parte do grupo de teatro e conta que vários personagens de contos de fadas farão parte da apresentação. “É um musical que chama ‘era uma vez o musical’, dentro dela tem Chapeuzinho Vermelho e João e Maria, Peter Pan, a Bela adormecida, e a Bela e a Fera”, conta a menina.

O também estudante Gustavo Miranda, de 12 anos, conta que o teatro tem vários benefícios. “Ele [o teatro] me ajuda a perder a vergonha e também é muito divertido”, afirma o garoto.

O professor de teatro Eduardo de Souza afirma que o teatro ajuda as crianças a serem mais comunicativas. “O teatro é libertador, eles começaram assim: fechados, tímidos, introspectivos. E agora tá todo mundo solto. Inclusive você, viu?”, disse o professor para Giovana.

A estudante lembra que Goiânia tem mais de 10 palcos de teatro. Na reportagem, ela visitou o Teatro Goiânia, que, segundo ela, é o mais importante. Ela explica que o palco foi construído na fundação da capital.

“O Teatro Goiânia foi inaugurado em 1942 por Pedro Ludovico Teixeira. E a construção dele é em estilo Art Decô, que é o estilo de muitos prédios históricos aqui do centro”, afirma.

Giovana afirma que o Teatro Goiânia passou por várias reformas. A última, em 2010, tirou 130 lugares para melhorar o acesso das pessoas.Na reportagem, Giovana subiu ao palco do teatro comemorou a sensação de estar em um dos principais locais da cultura na capital.
“Pensa: ficar de frente com 700 pessoas. É muito mais gente do que já assistiu nossas peças lá na escola”, calcula.

A estudante também foi ao camarim do teatro e conta que o espaço é grande e legal. “É aqui é onde os atores se arrumam e ficam na concentração para o teatro. E eu vou aproveitar e retocar a minha maquiagem”, disse.

Ainda segundo conta a estudante, ela descobriu que o palco é muito importante para os grupos de teatro que ainda não são famosos. Conforme a diretora do teatro, Dirce Vieira, o motivo é os valores dos teatros.
“Porque as companhias não tem um teatro com preço acessível pras apresentações. A maioria dos teatros é particular”, conta a diretora.

Além de teatro, Giovana conta que o palco do Teatro Goiânia também recebe apresentações de dança. Por isso, a garota foi até a escola de balé onde faz aula para mostrar como é.

“Muitos bailarinos em Goiânia também sonham com aquele lugar [Teatro Goiânia]”, afirma.

Jornalista Mirim fala sobre a cultura e a dança nos teatros em Goiânia, Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)
Giovana também fala sobre a cultura da dança e mostra uma aula de ballet (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Segundo a estudante, nas aulas, os alunos aprendem a ter postura e disciplina. “A gente tá se dedicando muito porque daqui a duas semanas, vai ser a nossa apresentação”, lembra.

A bailarina Rayssa Dantas dos Santos, de 11 anos, afirma que não é a primeira vez que irá se apresentar em um palco, mas, mesmo assim, está muito ansiosa.
A também bailarina Maria Eduarda Lins, de 8 anos, disse que já dançou em outras apresentações de dança e que é “muito difícil”.

Giovana conclui a reportagem dizendo que, por mais que goste de teatro e balé, ainda não sabe o que quer fazer quando crescer. No entanto, a estudante tem uma certeza: quer estar, mesmo, é em cima de um palco.


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